17 de dezembro
de 2013
A
palavra de Deus interage com a cultura dos relacionamentos
a fim de moldar e conformá-los aos propósitos do
Criador.
Quem reflete sobre a orientação que a palavra de Deus dá para o casamento não
deve imaginar que ela não leve em conta as mudanças culturais pelas quais os
relacionamentos conjugais passaram no decurso dos séculos. A palavra e obra de
Deus não impõem um modelo de casamento autoritariamente. Mas o Senhor quer que
lhe demos ouvidos e aprendamos da palavra registrada na Bíblia.
O Antigo Testamento retrata como os patriarcas e, mais tarde, o povo de Israel
viveram num ambiente em que a poligamia era difundida e culturalmente aceita. É
importante observar como a palavra de Deus interage com este contexto: Por um
lado ela não oculta nem omite as dores e amarguras dos relacionamentos
polígamos[1]. Por outro lado, introduz leis que regulam os
relacionamentos e que protegem as esposas (e escravas).[2]
Assim o amor de Deus foi inibindo a poligamia e favorecendo a monogamia.[3]
No debate com os fariseus em Mateus 19 Jesus lembra Gênesis 1 e 2 para reafirmar
o propósito do Criador com o casamento. Em sua carta aos Efésios (5.21(!)-33)
Paulo ensina que o relacionamento conjugal é moldado pelo amor mútuo entre
Cristo e a igreja. Portanto, a opção pela monogamia vitalícia é uma decorrência
prática e lógica deste amor. Mesmo assim a igreja do Novo Testamento não excluiu
da igreja os polígamos que se convertiam, apenas impediu que eles exercessem
funções de liderança nela.[4]
Vemos que a palavra de Deus não se impõe “na marra”, mas ela se comunica com a
realidade humana tal qual ela é. A Sagrada Escritura não ignora os moldes
culturais, mas interage com eles a fim de gerar as mudanças que correspondam ao
propósito Criador. O meu professor de aconselhamento, Manfred Seitz, resumiu
este direcionamento de modo muito conciso em cinco
“diretrizes
bíblico-teológicas sobre o casamento:
1)
No
casamento Deus une duas pessoas concretas – um homem e uma mulher – num
pertencimento mútuo, que exclui rigorosamente pretensões de
terceiros.
2)
Por
esta união eles estão vinculados enquanto viverem. Portanto: ela não é união
temporária, pois, o que seria uma promessa de amor com duração
limitada?
3)
Os
cônjuges reconhecem estarem destinados um ao outro na totalidade de seu gênero.
O casamento não é apenas um estágio inicial da família.
4)
A
esta união é prometida a bênção de gerar nova vida. Ao contrário de antigamente
– quando ela era óbvia – em nossos dias a tarefa de procriar precisa ser
mencionada explicitamente.
5)
Em
tudo isto o casal é chamado do pecado e da alienação de Deus para a graça e para
a comunhão com o Senhor, o fiador da sua estabilidade, que promete renová-los na
intimidade do casamento.
Esta é a visão cristã: o casamento não é a realização da vida, nem a superação e
eliminação do todos os problemas, mas
-
é o chamado para a comunhão vitalícia com uma pessoa específica
que se doa por completo;
-
como estado é um espaço para exercitar a fé, a esperança e o
ágape (=amor abnegado) que excede o espaço do (próprio) casamento, o que
inclui assumir responsabilidade pelo futuro da terra através do consentimento
(em querer ter) filhos e na disposição para (assumir) restrições e
renúncia;
-
como lugar (é) o lugar no qual o chamado de Deus alcança quem se
tronou cônjuge.
A isto corresponde que… o amor, em sua confiabilidade e fidelidade, almeja
“moldar-se institucional-, jurídica- publicamente”. O amor conjugal necessita de
uma continuidade temporal que protege os próprios cônjuges e os filhos e que não
esteja sempre prestes a colapsar. Em situações críticas os cônjuges podem
apegar-se ao 'saldo positivo (de amor) prometido pela palavra de Deus' (O.
Bayer)”[5]
Quem der ouvidos ao que ensina a Escritura e dela aprender, discernirá o
direcionamento que Deus nos dá em meio ao conturbado cenário de relacionamentos
da nossa sociedade. Não fecharemos os olhos para o fato de que muitos
desconhecem ou ignoram o propósito divino. Olharemos para esta realidade sem
moralismo, mas também sem ocultar as muitas feridas visíveis e ocultas. Ao mesmo
tempo indicaremos com nossa vivência conjugal o caminho do enfrentamento do
nosso egoísmo nato e da restauração para o qual o evangelho convida. A
obediência que vem da fé[6] ajuda a despoluir e a reconstruir
a vida e também os relacionamentos conjugais.
P.
Martin Weingaertner, Curitiba
[1] Abraão/Sara/Hagar – Gn 16-21; Jacó/Lia/Raquel/Bila/Zilpa – Gn 29-30; Sansão – Jz; o levita e a concubina – Jz 19; Elcana/Ana/Penina – 1Sm 1-2; Davi – 1-2 Sm ; Salomão – 1 Rs; etc..
[2] Lv 19.20s; 20.10ss; Dt 22.13ss; 21.10s.
[3] “Esposa/marido da juventude” (Pv 5.18; Is 54.6; Ml 2.14s.; Jl 1.8) e “meu marido” (Os 2.16).
[4] 1Tm 3.2; 5.9; Tt 1.6.
[5] SEITZ, Manfred: Die Ehe im Spiegel der Liturgie de Trauung. Em BAYER, Oswald (org) : EHE, Zeit zur Antwort, p.110s. Neukirchner Verlag / Neukirchen-Vluyn. 1988. ISBN 3-7887-1275-9
[6] Cf. Rm 1.5; 16.26