quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Edição 25

17 de dezembro de 2013

A palavra de Deus interage com a cultura dos relacionamentos a fim de moldar e conformá-los aos propósitos do Criador.
         Quem reflete sobre a orientação que a palavra de Deus dá para o casamento não deve imaginar que ela não leve em conta as mudanças culturais pelas quais os relacionamentos conjugais passaram no decurso dos séculos. A palavra e obra de Deus não impõem um modelo de casamento autoritariamente. Mas o Senhor quer que lhe demos ouvidos e aprendamos da palavra registrada na Bíblia.
         O Antigo Testamento retrata como os patriarcas e, mais tarde, o povo de Israel viveram num ambiente em que a poligamia era difundida e culturalmente aceita. É importante observar como a palavra de Deus interage com este contexto: Por um lado ela não oculta nem omite as dores e amarguras dos relacionamentos polígamos[1]. Por outro lado, introduz leis que regulam os relacionamentos e que protegem as esposas (e escravas).[2] Assim o amor de Deus foi inibindo a poligamia e favorecendo a monogamia.[3]
         No debate com os fariseus em Mateus 19 Jesus lembra Gênesis 1 e 2 para reafirmar o propósito do Criador com o casamento. Em sua carta aos Efésios (5.21(!)-33) Paulo ensina que o relacionamento conjugal é moldado pelo amor mútuo entre Cristo e a igreja. Portanto, a opção pela monogamia vitalícia é uma decorrência prática e lógica deste amor. Mesmo assim a igreja do Novo Testamento não excluiu da igreja os polígamos que se convertiam, apenas impediu que eles exercessem funções de liderança nela.[4]
          Vemos que a palavra de Deus não se impõe “na marra”, mas ela se comunica com a realidade humana tal qual ela é. A Sagrada Escritura não ignora os moldes culturais, mas interage com eles a fim de gerar as mudanças que correspondam ao propósito Criador. O meu professor de aconselhamento, Manfred Seitz, resumiu este direcionamento de modo muito conciso em cinco
“diretrizes bíblico-teológicas sobre o casamento:
1)   No casamento Deus une duas pessoas concretas – um homem e uma mulher – num pertencimento mútuo, que exclui rigorosamente pretensões de terceiros.
2)   Por esta união eles estão vinculados enquanto viverem. Portanto: ela não é união temporária, pois, o que seria uma promessa de amor com duração limitada?
3)   Os cônjuges reconhecem estarem destinados um ao outro na totalidade de seu gênero. O casamento não é apenas um estágio inicial da família.
4)   A esta união é prometida a bênção de gerar nova vida. Ao contrário de antigamente – quando ela era óbvia – em nossos dias a tarefa de procriar precisa ser mencionada explicitamente.
5)   Em tudo isto o casal é chamado do pecado e da alienação de Deus para a graça e para a comunhão com o Senhor, o fiador da sua estabilidade, que promete renová-los na intimidade do casamento.
     Esta é a visão cristã: o casamento não é a realização da vida, nem a superação e eliminação do todos os problemas, mas
- é o chamado para a comunhão vitalícia com uma pessoa específica que se doa por completo;
- como estado é um espaço para exercitar a fé, a esperança e o ágape (=amor abnegado) que excede o espaço do (próprio) casamento, o que inclui assumir responsabilidade pelo futuro da terra através do consentimento (em querer ter) filhos e na disposição para (assumir) restrições e renúncia;
- como lugar (é) o lugar no qual o chamado de Deus alcança quem se tronou cônjuge.
     A isto corresponde que… o amor, em sua confiabilidade e fidelidade, almeja “moldar-se institucional-, jurídica- publicamente”. O amor conjugal necessita de uma continuidade temporal que protege os próprios cônjuges e os filhos e que não esteja sempre prestes a colapsar. Em situações críticas os cônjuges podem apegar-se ao 'saldo positivo (de amor) prometido pela palavra de Deus' (O. Bayer)”[5]
         Quem der ouvidos ao que ensina a Escritura e dela aprender, discernirá o direcionamento que Deus nos dá em meio ao conturbado cenário de relacionamentos da nossa sociedade. Não fecharemos os olhos para o fato de que muitos desconhecem ou ignoram o propósito divino. Olharemos para esta realidade sem moralismo, mas também sem ocultar as muitas feridas visíveis e ocultas. Ao mesmo tempo indicaremos com nossa vivência conjugal o caminho do enfrentamento do nosso egoísmo nato e da restauração para o qual o evangelho convida. A obediência que vem da fé[6] ajuda a despoluir e a reconstruir a vida e também os relacionamentos conjugais.
P. Martin Weingaertner, Curitiba




[1]    Abraão/Sara/Hagar – Gn 16-21; Jacó/Lia/Raquel/Bila/Zilpa – Gn 29-30; Sansão – Jz; o levita e a concubina – Jz 19; Elcana/Ana/Penina – 1Sm 1-2; Davi – 1-2 Sm ; Salomão – 1 Rs; etc..

[2]    Lv 19.20s; 20.10ss; Dt 22.13ss; 21.10s.

[3]    “Esposa/marido da juventude” (Pv 5.18; Is 54.6; Ml 2.14s.; Jl 1.8) e “meu marido” (Os 2.16).

[4]    1Tm 3.2; 5.9; Tt 1.6.

[5]    SEITZ, Manfred: Die Ehe im Spiegel der Liturgie de Trauung. Em BAYER, Oswald (org) : EHE, Zeit zur Antwort, p.110s. Neukirchner Verlag / Neukirchen-Vluyn. 1988. ISBN 3-7887-1275-9

[6]    Cf. Rm 1.5; 16.26