27
de março de 2013
COMO
LUTERANOS INTERPRETAM A BÍBLIA
A
cultura pós-moderna que relativiza a verdade e a moral também relativiza a
leitura e interpretação da Bíblia. Assim, pessoas diferentes fazem
interpretações contraditórias usando o mesmo texto bíblico.Quando não se tem
princípios claros que norteiam a interpretação bíblica, ela estará refém dos
pressupostos do leitor. Os textos deixam de dizer o que dizem e passam a dizer o
que queremos que digam. Ou seja, a interpretação é condicionada ao leitor.
Na linguagem
teológica chamamos de hermenêutica essa tarefa de interpretação bíblica. Então,
que hermenêutica usamos para a leitura da Bíblia? Qual seria mais confiável para
não deixarmos a leitura e interpretação bíblica a mercê de nossos interesses?
Como luteranos, devemos voltar a Lutero. Sua proposta de interpretação da Bíblia
poderia ser esta ferramenta mais segura para não sujeitarmos a Bíblia aos
interesses de cada geração.
Lutero afirmou
enfaticamente que ler a Bíblia distinguindo lei e evangelho era a forma correta
de interpretar as Escrituras. Como funciona isso? A lei é aquilo que mostra o
nosso pecado, que aponta nossa perdição, nossa falência total diante de Deus.
Por isso, a lei mata e condena. Contudo, ela é importantíssima, pois mostra a
toda a pessoa a necessidade radical que possui diante de Deus. Nesse momento,
entra o evangelho. Ele é a boa notícia de que Deus proveu perdão e salvação por
meio do sacrifício de Cristo na cruz. Embora condenável, o ser humano é amado
por Deus, e este lhe proveu a quitação de toda culpa e pleno acolhimento em sua
presença santa, antes inacessível. A tomada de consciência da condição de
perdido diante de Deus e, respectivamente, do perdão imerecido, chamamos
arrependimento. Assim, a lei conduz o homem a Cristo ao mostrar sua condição e
sua necessidade. A graça de Deus o acolhe, perdoa, santifica, justifica, redime
e, pela presença do Espírito Santo, oferece condições de viver uma nova
vida.
Quando
pregamos apenas a lei ou o juízo de Deus, caímos no legalismo. O legalismo
mostra o pecado, mas não diz como sair dele. Ele coloca sobre os ombros das
pessoas um peso que elas não podem carregar. Se pudessem, Cristo não precisaria
ter morrido na cruz. Na igreja, gera dois tipos de pessoas: o primeiro é o
hipócrita, aquele que não consegue viver a altura do padrão de Deus, mas finge
que vive. É o tipo de pessoa que julga nos outros o que não consegue resolver em
si mesmo. A espiritualidade vira uma questão estética, de aparência, dividindo o
que se é no ambiente eclesiástico o que se é na vida privada. Gera pessoas
endurecidas, julgadoras e arrogantes. O segundo grupo são daquelas pessoas
sinceras, que percebem não poder atingir o padrão de Deus por meio de seus
próprios esforços, e que saem da igreja por não suportar a pressão sobre si nem
a hipocrisia dos outros. Acabam terminando feridas, frustradas e incapazes de
serem “verdadeiros cristãos”.
Quando
oferecemos o evangelho sem a lei, caímos no fosso do liberalismo. O teólogo
Dietrich Bonhoeffer chamou isso de “graça barata”. Nesse contexto, não é mais o
pecador que é justificado, mas o seu pecado. Não é a pessoa que é acolhida, mas
o seu comportamento reprovável. O perdão vira um direito, não mais um
privilégio. O sangue de Jesus é pisado e o Espírito da graça, ultrajado. É
justificação da irreverência e do cinismo. É a forma mais perversa de maquiar o
mal.
Assim, para
não estarmos sujeitos aos ventos da contemporaneidade, somos convidados a limpar
nossos óculos das interpretações próprias e buscar uma forma segura, e por que
não dizer, mais luterana, de estudar um texto bíblico e dele
tirar conclusões e aplicações.
P.
Daniel Schorn – Orleans - SC
Contato
Nenhum comentário:
Postar um comentário